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Festivais europeus de cinema unem-se em defesa da Cinemateca do Brasil

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Matéria publicada no periódico português Jornal de Notícias (JN), 23.09.2021.

Nove festivais europeus de cinema, entre os quais de San Sebastian e de Veneza, assinaram uma carta pública de apoio à Cinemateca Brasileira e aos seus trabalhadores, e de crítica à “negligência” do governo federal do Brasil.

A carta pública, divulgada hoje, foi lançada pela direção do Festival de Cinema de San Sebastian, que decorre no País Basco, juntamente com a Cinemateca Basca e a Escola de Cinema Eliás Querejeta, exigindo a reabertura da Cinemateca Brasileira, paralisada há mais de um ano e que sofreu um incêndio em julho passado.

“O perigo pelo qual passa o património cinematográfico brasileiro não é um problema local, mas uma ameaça à cultura cinematográfica como um todo: Só com a colaboração e a solidariedade internacional entre festivais, cinematecas e instituições académicas é que se pode construir o presente e o futuro do cinema”, lê-se no documento divulgado.

Entre os signatários deste apelo público estão os diretores dos festivais de Veneza, Locarno, Karlovy Vary, Zurique, Vilnius, Sevilha, Huelva e Gijón.

Todos exigem a reabertura da Cinemateca Brasileira e compensações para os trabalhadores, e denunciam o estado de abandono provocado pela administração do presidente Jair Bolsonaro, pondo em causa a salvaguarda um património cultural e cinematográfico “de valor incalculável”, “um dos mais importantes da América Latina”.

O mais recente episódio da crise pela qual passa a Cinemateca Brasileira aconteceu em julho, quando um incêndio atingiu o edifício, em São Paulo, que alberga o maior arquivo cinematográfico da América do Sul.

Segundo informações dos ‘media’ brasileiros, entre os materiais armazenados e destruídos pelo fogo estavam cerca de quatro toneladas de documentos sobre a história do cinema do Brasil, equipamentos e parte do acervo do realizador Glauber Rocha.

Diversas personalidades do cinema brasileiro lamentaram as perdas para o património cinematográfico mundial e responsabilizaram o governo de Jair Bolsonaro, responsável pela gestão da cinemateca.

Em 2016, a cinemateca já tinha sido atingida por um incêndio que consumiu cerca de 500 obras fílmicas, e em 2020 sofreu uma inundação.

No início de agosto, também a Cinemateca Portuguesa se juntou ao movimento internacional de solidariedade, lamentando a “inédita e gravíssima situação de exceção imposta pelo Governo brasileiro”, que a impede de “funcionar e de cumprir as mais elementares funções de salvaguarda que lhe estão consignadas”.

Este mês, a Cinemateca Portuguesa iniciou um ciclo regular de cinema brasileiro, que só terminará quando os trabalhadores da Cinemateca Brasileira “puderem de novo regressar ao lugar e à missão que lhes compete”.

A Cinemateca Brasileira junta-se a uma longa lista de instituições e entidades culturais que têm sido alvo das chamas no Brasil, onde os cortes no orçamento na área da Cultura se intensificaram nos últimos anos.