histórico

A Cinemateca Brasileira se originou no Segundo Clube de Cinema de São Paulo (1946), entidade voltada à promoção da cultura cinematográfica. Anos depois, o Clube foi extinto para dar lugar à Filmoteca do Museu de Arte Moderna de São Paulo (1948), que mais tarde se tornaria Cinemateca Brasileira (1956) e, em seguida, Fundação Cinemateca Brasileira (1961).

Essas transformações estavam relacionadas a esforços administrativos que possibilitassem à instituição o reconhecimento público de sua missão e, sobretudo, a obtenção de recursos materiais para o desenvolvimento de seus trabalhos. Inúmeros foram os esforços de Paulo Emílio Sales Gomes (1916-1977) em obter apoio dos poderes públicos, da Universidade de São Paulo e da iniciativa privada, mas a Cinemateca seguia desamparada.

Em 1962, diante das permanentes dificuldades, foi articulada a criação da Sociedade Amigos da Cinemateca. No núcleo desta empreitada estavam Dante Ancona Lopez, Florentino Llorente e Paulo Sá Pinto, empresários do ramo de exibição cinematográfica de São Paulo; e Rudá de Andrade, Conservador-Adjunto da Fundação Cinemateca.

A ideia já havia sido lançada por Paulo Emílio, em 1957. Após o primeiro incêndio da Cinemateca, ele faz um exame das relações da instituição com as esferas políticas e sociais e do impacto da tragédia na opinião pública, concluindo que:

“Se todos se agruparem numa sociedade de amigos da Cinemateca Brasileira será evitado um colapso cuja consequência impediria por tempo indeterminado que o nosso país continue participando do mais importante fenômeno de aprofundamento da cultura democratizada no mundo moderno: a aproximação cultural do cinema.” (Paulo Emílio Sales Gomes – A Cinemateca e os poderes, 1957)

A SAC foi constituída oficialmente em 02 de julho de 1962. Seu primeiro presidente foi Dante Ancona Lopez, que também exerceu o cargo de diretor juntamente com Florentino Llorente, João Guilherme de Oliveira Costa e Rui Nogueira Martins. Rudá de Andrade era responsável pela orientação técnica; Jean-Claude Bernardet coordenava as publicações, enquanto Alexandre Wollner orientava a identidade gráfica.

No Conselho Consultivo da SAC, além dos diretores, estavam Flávio de Almeida Prado, Flávio Rangel, Lygia Freitas Valle, Oswaldo Massaini, Roberto Abreu Sodré, Romeu Mindlin, Rui Nogueira Martins, Vicente Ancona entre outros. Os sócios beneméritos eram Thomaz Farkas (Fotoptica), José Nemirovsky e Leo Godoy Otero.

A sede da SAC foi instalada no Cine Coral, construído por Dante Ancona – Áurea Filmes – Circuito Serrador. O cinema foi inaugurado em 1958 e em poucos anos consolidou o conceito de cinema de arte na cidade de São Paulo. Essa vocação do Cine Coral era muito oportuna à SAC e a Fundação Cinemateca, pois a promoção da cultura cinematográfica e da cinefilia passava inevitavelmente pelas cinematecas e seus acervos. Paulo Emílio evidenciou bem essa convergência, ao defender que a criação da SAC representava:

“a conclusão de um processo em curso há vários anos em todo o mundo, o do entendimento gradual entre aqueles para quem cinema é agir nos quadros da indústria e do comércio e os que procuram na atividade cinematográfica a canalização de preocupações educacionais e artísticas”. (Paulo Emílio Sales Gomes – Amigos da Cinemateca, 1962).

No Coral funcionou ainda, entre 1964 e 1966, a Galeria de Arte da Sociedade Amigos da Cinemateca, mais conhecida como Galeria SAC. Na direção do espaço estavam Flávio Império (arquiteto, cenógrafo e artista plástico); Walter Zanini (historiador e crítico de arte) e Wesley Duke Lee (artista plástico).

Em dezembro de 1962, a SAC firmou um convênio com o Museu de Arte de São Paulo (MASP), ampliando suas atividades culturais, em paralelo ao que era organizado nos cinemas de arte da Cia. Serrador. Em 1965, Dante Ancona Lopez e Rudá de Andrade empreenderam a recuperação do Cine Picolino, na Rua Augusta. As programações mantiveram a linha curatorial que vinha desde o Coral e o slogan Espetáculo, Polêmica e Cultura reforçava o perfil da sala como um espaço de estímulo mais amplo à cultura cinematográfica. O mesmo ocorreu com o Cine Scala, na Rua Aurora. Um artigo do jovem Glauber Rocha (1939-1981), no Diário Carioca, sobre a reinauguração do Picolino dava a dimensão do prestígio alcançado pela SAC em pouco mais de três anos:

“A Sociedade Amigos da Cinemateca, prestigiosa entidade especializada na arte do cinema, orientará a programação do Picolino, dentro de um espírito polêmico e de debate. Para isso selecionará os filmes valor artístico, os de difícil lançamento e os que participam da vanguarda da cinematografia para renovar e abrir os novos caminhos da sétima arte.” (Glauber Rocha – Paulista, 1965)

A partir de 1966, a SAC encerrou com significativo êxito suas atividades no Coral, no Picolino e no MASP. Cada espaço tomou um rumo específico e a SAC, no ano seguinte, inauguraria um novo cinema.

Em julho de 1967, após um novo acordo entre a SAC e a Cia Serrador, foi inaugurado o cine Belas Artes (antigo Cine Trianon) na Rua da Consolação. Além de sala de projeção, o imóvel acolheu também a nova sede da entidade. Em março de 1972, após a reforma e divisão do Belas Artes, as duas grandes salas correspondentes à plateia e ao balcão, rebatizadas de Candido Portinari e Villa-Lobos, ofereciam sessões especiais de clássicos do cinema nos fins de semana. As programações regulares da Sociedade – mostras e cursos – se concentraram na pequena Sala Mário de Andrade, no subsolo do imóvel. Ainda que a capacidade da sala fosse bem menor, foram mantidas programações de relevância pelo menos até 1976, momento em que a SAC entrou em recesso de pouco mais de 10 anos.

Nessa primeira fase (1962-1976), apesar de seu notório papel no cenário cultural, com mais de 2.000 associados e programações sofisticadas, a SAC não conseguiu viabilizar apoios regulares às atividades de conservação de acervo da Cinemateca. Assim como na atualidade, havia uma dificuldade em atrair recursos para os trabalhos arquivísticos, e suas ações se concentraram na difusão cinematográfica.

Em 1984, a Fundação Cinemateca Brasileira foi extinta para se tornar um órgão específico e autônomo da Fundação Nacional Pró-Memória. A incorporação ao governo federal, no entanto, foi pouco efetiva para arrefecer as dificuldades financeiras e materiais da instituição.
Em 1988, na gestão de Carlos Augusto Calil como diretor executivo da Cinemateca, foi formada uma comissão com membros do Conselho da Cinemateca e do primeiro Conselho da SAC, com vistas à reativação da Sociedade. Integravam o novo conselho da entidade: Luiz Carlos Bresser-Pereira (presidente), Thomaz Farkas (vice-presidente), Dante Ancona Lopez, Edmar Pereira, Guilherme Ferreira Lisboa Neto, Hermano Penna e Ugo Sorrentino.

O primeiro grande projeto dessa nova fase foi a viabilização, em 1989, da Sala Cinemateca, com patrocínio do Banco Nacional. A Sala Cinemateca, por intermédio da SAC, propiciava à Cinemateca Brasileira rendimentos anuais de cerca de 100 mil dólares, carreando recursos do patrocínio e da bilheteria para investimentos nas áreas museológica e arquivística, em atividades de restauração e catalogação de acervos.

Em seguida, a Sociedade concentrou esforços em prospectar recursos para instalação da nova sede da Cinemateca, no matadouro da Vila Clementino – cedido à União pela Prefeitura de São Paulo, por meio da Lei 10.623/1988. Por mais de duas décadas, foram executados projetos de infraestrutura, para recuperação, adequação e modernização da sede da Cinemateca, além da instalação de uma nova unidade técnica na Vila Leopoldina, zona oeste de São Paulo.

Ao longo da década de 1990, a SAC respondia por quase metade do orçamento da Cinemateca, e pela contratação de quadro técnico complementar aos servidores públicos. Em 1995, a Prefeitura de São Paulo concedeu uma subvenção anual a SAC, que até hoje transfere recursos do orçamento municipal para a entidade desenvolver atividades de apoio à Cinemateca Brasileira (Lei 11.793/1995). 

De 1997 a 2005, sob a presidência de Cosette Alves, a Sociedade Amigos da Cinemateca intensificou a captação de recursos da iniciativa privada, através de campanhas junto a empresários para patrocínios ou doações. Como resultado, aumentou sua participação no orçamento da Cinemateca e executou relevantes projetos, como a construção do Arquivos de Matrizes Audiovisuais.

Em março de 2008, a SAC teve aprovada pelo Ministério da Justiça a qualificação de OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público), o que lhe permitiu ampliar a realização de convênios e parcerias com entidades privadas e públicas. A partir da qualificação como OSCIP, na gestão de Carlos Magalhães à frente da Cinemateca Brasileira e Maria Dora Mourão na presidência e direção da SAC, foi firmado com o então Ministério da Cultura um Termo de Parceria que contemplou vinte Planos de Trabalho com aportes específicos para ações de infraestrutura, preservação e difusão audiovisual. Na vigência do Termo (2008-2012), a Cinemateca, a par de atender às demandas de política audiovisual do MinC, aumentou consideravelmente sua capacidade operacional e sua projeção nacional e internacional.

Em 2013, houve uma intervenção político-administrativa do Ministério da Cultura na Cinemateca Brasileira. Desde então, ela passou a operar de forma instável e com recursos insuficientes. Em 2016, o mesmo Ministério iniciou processo de publicização da gestão terceirizada da Cinemateca, modelo discutido amplamente pela SAC e pelo Conselho Consultivo nos anos 2000, mas que à época não foi efetivado pelo Executivo Federal. A SAC concorreu no chamamento de 2016, mas foi classificada em segundo lugar. Ainda que tenha perdido a centralidade no suporte operacional da Cinemateca, a SAC continuou a colaborar, mais especificamente por meio de ações de formação cultural.

Na mais recente crise da Cinemateca Brasileira, iniciada em 2020, a Sociedade reassumiu seu protagonismo ao mobilizar poderes públicos e sociedade civil em um amplo movimento de apoio à recuperação da instituição.